Barroco Brasileiro uma Bela Mistura de Culturas
- Pedro Fontes

- 4 de mar. de 2021
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Igreja de São Francisco da Penitência / Rio de Janeiro
Adequação dos movimentos do Barroco europeu e do Neoclássico no Brasil.
Os movimentos Barroco Europeu e Neoclássico, tiveram bases em comum, mas seu desenvolvimento destacou características distintas aqui no Brasil. Antes de o estilo Barroco chegar ao Brasil as únicas manifestações artísticas que existiam no país eram dos povos indígenas nativos, mas a sua produção não era reconhecida como arte.
O Barroco no Brasil se desenvolveu principalmente entre o século XVIII e o XIX, mas seu apogeu aconteceu na metade de 1700. O Barroco brasileiro foi diretamente influenciado pelo Barroco português, porém, com o tempo, foi assumindo características francesas, espanholas e italianas, uma das distinções do Barroco de um modo geral. O estilo Barroco Brasileiro é a primeira manifestação artística verdadeiramente nacional, já que nossos artistas produziram obras que misturavam elementos da cultura negra e mulata com o modelo europeu.

Sítio Arqueológico de São Miguel das Missões / RS
O estilo Barroco desembarcou no Brasil através de ordens religiosas como beneditinos, carmelitas, franciscanos e jesuítas, que passaram a vir para o país no século XVII. A igreja como grande financiadora de arte promoveu as primeiras investidas do estilo na região nordeste, sudeste e sul. Um dos registros mais antigos da Arte Barroca no Brasil pode ser observado nas ruinas de São Miguel das Missões, na região da Bacia da Prata no Rio Grande do Sul. No Brasil a Arte Barroca seguiu principalmente a religiosidade, estando atreladas as construções de igrejas, representação de cenas bíblicas ou ligadas a tradição cristã.
Centros Históricos Barrocos com arquiteturas, pinturas e esculturas, podem ser encontrados em Ouro Preto e Salvador. Conjuntos Artísticos Barrocos, como o do Santuário do Bom Jesus de Matosinhos, receberam o estatuto de monumentos da humanidade pela UNESCO. Além de Minas Gerais e Bahia o Barroco foi desenvolvido em Goiás, João Pessoa (Pernambuco), Alagoas e em grande escala no Rio de Janeiro.

A Arte Barroca foi desenvolvida por todo país pelas mãos de muitos artistas notórios, mas em sua maioria anônimos.
Pintura

A pintura barroca brasileira exalta a religiosidade através do drama e da emoção das figuras. Elementos provenientes do estilo rococó influenciaram pintores brasileiros que incorporavam em suas cenas os arabescos e anjinhos comuns ao estilo. O sentimentalismo da cena era usado amplamente para comover os fiéis, muitos de origem humilde, que se viam consolados com as figuras sacras. A pintura de decoração foi muito usada nos tetos das igrejas e em alguns exemplos podemos até perceber a pintura Ilusionista, comum em muitas igrejas europeias, que serviam para emular o céu no interior da igreja.

Azulejos Pintados
A decoração através de azulejos pintados também foi uma prática comum no Barroco Brasileiro. A tradição da azulejaria foi trazida pelos portugueses e se espalhou pelo nordeste brasileiro e no Rio de Janeira. As azulejarias inicialmente mostravam apenas arabescos e padrões geométricos, conforme a aceitação por esse meio decorativo, foi aumentando cenas sagradas e cotidianas, e assim começaram a ser retratados nos azulejos que se tornaram parte da arquitetura barroca brasileira.
Escultura

Esculturas de Antônio Francisco Lisboa (Aleijadinho)
No ramo da escultura o estilo Barroco Brasileiro fez o uso intenso da pedra-sabão, cerâmica e madeira policromada ou dourada. Conectada a decoração e ornamentação da arquitetura, mistura características Barrocas e Rococós.
Arquitetura

Igreja Matriz de Santo Antônio - Tiradentes / MG
A arquitetura barroca que encontramos no litoral brasileiro é de origem portuguesa e no inicio não se diferenciou muito do estilo europeu. Através da catequese jesuíta, que utilizava o “Barroquismo” como pedagogia religiosa, observa-se também, sua presença na colonização portuguesa do Brasil. Com a chegada dos colonos da Europa, costumes, a arquitetos, os desenhistas, escultores e materiais de construções pré-moldados eram trazidos para o Brasil. Os projetos das igrejas, que aqui seriam edificadas, muitas, foram feitos em Lisboa.
A introdução do Barroco se deu aos poucos, os vestígios mais antigos de arquitetura Barroca no Brasil datam do início de 1700 e estão localizados no Rio Grande do Sul, em São Miguel da Missões. A igreja foi a responsável por trazer o estilo para o país e foi ela que começou a dissemina-lo. As construções encontradas em São Miguel apresentam diversidade eclética, tendo semelhanças com o estilo Gótico e com o Romântico.
Em Salvador em meados do século XVII a cidade começou a apresentar características Barrocas nas suas construções, com fachadas e frontões que lembravam o barroco português. No final do século XVII a tendência se expandiu para decoração de fachadas com esculturas de pedra-sabão e azulejaria.
No século XVIII devido ao avanço econômico de Minas Gerais e do Rio de Janeiro a arquitetura Barroca passa a ser usada em grande escala na região sudeste. As igrejas passam a apresentar uma fachada com elementos mais simples e austeros (sérios), guardando para a decoração do interior, o luxo e o requinte. A sutileza do estilo Rococó se mistura com o Barroco nesse momento, gerando obras requintadas e acolhedoras.
A Arquitetura Civil era de caráter provisório, visava mais sua funcionalidade do que sua estética. As pessoas que tinham mais posses no país, logo as que tinham mais poder para construir grandes casas, acabavam optando por construções que fossem mais funcionais do que luxuosas, visto que a busca por riquezas em um país que está sendo colonizado leva as pessoas a se mudarem o tempo todo.
Alguns Artistas do Barroco Brasileiro
Antônio Francisco Lisboa
(1730 – 1814)

Mais conhecido como Aleijadinho. Ganhou esse pseudônimo, pois antes dos 50 anos, ele foi atacado por uma doença degenerativa, que deformou e atrofiou o seu corpo, desencadeando a perda progressiva dos movimentos dos dedos das mãos e dos pés. Com isso passou a trabalhar com os instrumentos amarrados às mãos por seus escravos, que o carregavam até os locais de trabalho. Aleijadinho segue o estilo Barroco, ou seja, suas obras são carregadas de movimento e emoção, mas o artista brasileiro era dono de um estilo pessoal que se destacava em suas obras. Suas principais características eram:
Linhas curvas;
Drapeados nas vestes e uso intenso do dourado;
Gestos e faces das personagens revelam emoções fortes;
Feições populares, inspiradas na população comum;
Olhos espaçados;
Nariz reto e alongado;
Lábios entreabertos;
Queixo pontiagudo;
Pescoço alongado em forma de V.
Antônio, além de escultor também foi arquiteto e decorador de igrejas. A cidade de Congonhas do Campo - MG - abriga seu mais importante conjunto escultórico, mas existem inúmeras obras de sua autoria em museus e igrejas, principalmente de Ouro Preto. Na ladeira à frente da igreja foram construídas seis capelas, três de cada lado. Em cada uma delas, um conjunto de estátuas de madeira em tamanho natural que narra o caminhar da paixão de Cristo. Esculturas de Aleijadinho, como a do profeta Amós, em Congonhas, Minas Gerais, estão entre as mais significativas obras do barroco brasileiro.
Manuel da Costa Ataíde
(1762-1830)

Mais conhecido como Mestre Ataíde, foi um grande expoente da pintura brasileira no estilo barroco. Nasceu na cidade de Mariana, em Minas Gerais, foi contemporâneo de Aleijadinho e até fez trabalhos em conjunto com ele. Seu estilo de pintura junta elementos tradicionais da pintura Barroca, a emotividade, elementos decorativos e referências ao estilo Rococó que tornavam suas obras únicas e icônicas. Entre suas obras mais famosas estão a decoração do Teto da Igreja de São Francisco de Assis em Ouro Preto, o Teto da Matriz de Santo Antônio em Ouro Branco, o Teto da capela-mor da Igreja de Nossa Senhora do Rosário dos Pretos em Mariana e a pintura da A Última Ceia para o salão nobre do Colégio do Caraça, concluída pouco antes de morrer. Mestre Ataíde também trabalhou com ilustração, pintando gravuras para livros, entalhador, colorista de madeira e projetista.
Valentim da Fonseca e Silva
(1745-1813)

Mestre Valentim aprendeu em Portugal o oficio de entalhador e escultor, que passou a exercer no Rio de Janeiro em 1770. No Rio de Janeiro elaborou e executou uma série de projetos envolvendo urbanismo e embelezamento da cidade com as características do estilo Barroco, alcançando no final do século XVIII o posto de principal construtor de obras públicas da cidade. Mestre Valentim é considerado o Aleijadinho do Rio de Janeiro, famoso por ter características Barrocas associadas ao Rococó em suas obras. Seu estilo era único e trazia uma influência popular até mesmo na produção de obras voltadas para as classes mais privilegiadas da sociedade. Trabalhou com o entalhador Luís da Fonseca Rosa na decoração interna da Igreja da Ordem Terceira de Nossa Senhora do Carmo.

Chafariz do Carmo, localizado na Praça XV no centro do Rio de Janeiro.
Elaborou o projeto de construção do Passeio Público do Rio de Janeiro (que foi o primeiro jardim público do Brasil). Foi autor da obra do Chafariz do Carmo, localizado na Praça XV no centro do Rio de Janeiro, que servia para abastecer agua potável para embarcações já que era situado junto à escadaria dos barcos, atualmente o chafariz perdeu sua função original devido ao aterro que aconteceu na região.




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